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Mostrando postagens com o rótulo Ensaio

Ensaio: O QUE É FILOSOFIA

De novo me perguntam e vacilo em responder à questão. Como dizer o que é filosofia sem o uso da tópica, do jargão? Não posso dizer ao tio, mestre de obras, que filosofia é a ciência do ser enquanto ser, que é conhecimento racional por meio de conceitos, ou ciência da ciência em geral, ou matemática universal, produção de conceitos. Para ele, produzir é tornar visível, o mais visível possível, fazer da coisa, parte a parte, um todo, cuja grandeza é medida em  andares... Para ele (apesar do Deus invisível), o mundo é bastante sólido. Aliás, não seria ele o responsável pela artefatura do mundo? Em redor (vocês veem) paredes, muros, prédios, todos erguidos por ele (isso é produzir). Eu, que sou também materialista, até ousaria dizer, num repente de generalização: ele é quem construiu o mundo. Mas, e eu — com a modesta filosofia? Que faço? Como explicar o conceito ao homem do concreto? Como convencê-lo (como Paulo) a crer nas coisas invisíveis?       ...

AO LONGO DO RIO: JOÃO CABRAL E TRÊS POEMAS DO CAPIBARIBE, de Alexandre Koji Shiguehara

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O poeta João Cabral de Melo Neto (que daqui a poucos dias completará cem anos) define, em um ensaio intitulado "Da função moderna da poesia", duas vertentes ou duas águas através das quais escreve: por um lado, uma vertente "participante", por outro, uma vertente da "investigação formal". Ambas as águas, escreve Alexandre Shiguehara, "são duas formas de conceber a comunicabilidade da po esia". Nisso o poeta se punha em posição quase oposta à da poesia moderna, que, ao exacerbar o vetor da 'expressão', teria negligenciado, do ponto de vista do poeta pernambucano, a contraparte indispensável da 'comunicação'. A questão que se coloca é como essas vertentes determinam a poesia de João Cabral. Em que essa poesia participante contribui, por exemplo, com a poesia da investigação formal (a "poesia-poesia", na expressão de Haroldo de Campos) e como uma se relaciona com a outra. Parece-me que é esse o problema que Alexandre...

Polióptico: crítica de Felipe Lopes

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Polióptico Felipe Lopes          Alguns poemas são como perfume, um deleite, um enfeite, um adorno. Outros são como música, com tempo marcado, a forma regular. Mas nenhum destes encontramos no Polióptico de Eliakim Ferreira Oliveira. Estes poemas não podem ser lidos sem dificuldade, como se o caminho da leitura estivesse cheio de pedras. As pedras do poema são o impedimento do seguir suave. Nelas se vê a exigência de que, a cada momento, quase a cada palavra, deva-se parar, refletir, olhar onde pisa. De vez em quando se encontra uma rima, um ritmo, mas se dá de forma tão espontânea como uma flor colorida na natureza ainda não modificada pelo humano.             O estilo é comprometido com a concretude. As palavras usadas são os substantivos concretos: o olho, o osso, os óculos, o coração. Os adjetivos, quando aparecem, têm uma função apenas subsidiária. A matéria do poema é o fato, o bruto, o mi...

Ensaio: RUBENS RODRIGUES: O "STRIP-TEASE" DA PALAVRA

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Eu já vinha conversando sobre a poesia desse autor com alguns amigos, em especial o poeta  Roberto Bicelli , que conhece o poeta Rubens. Na verdade, faz tempo que tenciono escrever algo sobre esse autor. A obra de Rubens é pequena e muito original. Em 1981, Rubens publica, juntamente com os Jardins da Provocação de  Claudio Willer , em edição de Massao Ohno, O voo circunflexo . É, como alguém disse, um livro-jogo, mais exatamente um jogo que circula no cancioneiro de sentido e nonsense . Nesse livro, Rubens segue à risca os imperativos de Drummond: "não faça versos sobre acontecimentos", "não cante tua cidade", "não dramatizes", "não invoques" e, o mais importante, que é síntese e fundamento: "penetra surdamente no reino das palavras". Isso resultou numa poesia que é, sobretudo, signo de , pouco signo para : poesia que tende a ser única e exclusivamente do signo. O título, nesse sentido, não é gratuito: o voo circunflexo é já um sign...

Ensaio: QUANTO PESA UM POEMA

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           Há dois dias eu mostrava um poema de  Roberto Bicelli  para uma amiga. Roberto é jovem, de aparência e espírito, mas escreveu um poema de pouco mais de trezentos anos: SPLEEN STRESS             Não preciso dizer que a referência é aos humores que marcaram a produção literária nos séculos XVIII, XIX, XX e — por que não? — XXI (ou o XXI já é um terceiro humor: DEPRESSION?). Poema de longa data, sintético, muita matéria e energia condensadas. Se lhe abrirmos uma fresta (por favor, não faça isso), explode. Pedaços de Byron, Álvares de Azevedo e Álvaro de Campos para todos os lados! O horror.             Lembra, ao menos na forma, aquele poema-pílula de Oswald de Andrade, não lembra? AMOR HUMOR             Demorou muito até eu entender o poema de Oswald. O p...

Ensaio: POSAR PARA O POEMA

Certa vez um amigo mostrou-me os desenhos que resultaram de ter posado para uma pintora enquanto transava com uma moça. A pintora ia desenhando todas as posições, ou a sugestão delas. Via-se como, em cada garatuja, o casal ia mudando de posição: ora ele em cima, ora em baixo, ela sob e sobre ele, em pé ele, curvada ela. O espectador dos rabiscos punha termo no desenho apressado. No fundo, sabia o que estava acontecendo ali, via o que não podia ter visto, porque não estava no quarto, mas podia imaginar pela arquitetura das posições, muito bem representadas pela pintora, o que teria se passado onde ele mesmo não estava. Resolvi fazer algo sob o mesmo princípio, mas que não fosse um retrato por meio do desenho, e sim do poema: dizer ao modelo que faça o que lhe vier à gana, o que achar que deve fazer, enquanto o poeta escreve o poema sugestionado pelo ir e vir das posições. Nisso, o poema buscará, como o desenho apressado, fazer ver o inaparente: a arquitetura do ato, a estrutura que, s...